Autor: L. Filgueiras
Coautor: Fábio Martins Correa
Coautor: R. Ribeiro
A drenagem superficial em barragens de rejeitos é um componente essencial para a segurança e estabilidade da estrutura, uma vez que o escoamento descontrolado de águas pluviais pode desencadear processos de degradação superficial e aumento do aporte hídrico no maciço.
Cruz (2004) alerta que, nos projetos de barragens, o controle de fluxo no corpo da barragem, na fundação e nas ombreiras é fundamental para a segurança do empreendimento. Em estruturas deste porte, canais revestidos asseguram que o fluxo seja conduzido de forma estável, preservando o aterro e prolongando a vida útil dos elementos de contenção.
O presente artigo apresenta a execução do revestimento de um canal de drenagem localizado na ombreira direita e esquerda de uma barragem no interior do estado de Goiás, utilizando concreto projetado via úmida em processo mecanizado.

A solução adotada proporcionou a execução do revestimento estrutural do canal em concreto projetado, com elevada produtividade e ganhos relevantes em segurança operacional, durante e após a execução, reforçando a importância da modernização dos processos construtivos e evidenciando a evolução tecnológica disponível no setor.
Importância da Drenagem Superficial em Barragens
A drenagem superficial em barragens desempenha papel fundamental no controle do escoamento de águas pluviais sobre os taludes e áreas adjacentes ao maciço. Quando corretamente direcionado por meio de canais e estruturas auxiliares, o fluxo reduz a concentração de água sobre o solo exposto, evitando desgaste superficial, formação de sulcos, carreamento de partículas finas e degradação progressiva.
O manejo adequado das águas superficiais contribui para preservar a integridade global da estrutura, limita processos de infiltração e minimiza o aporte hídrico sobre o corpo da barragem, favorecendo sua estabilidade. Esses dispositivos, quando bem mantidos e adequadamente revestidos, atuam como elementos preventivos essenciais, reduzindo a necessidade de intervenções corretivas e aumentando a confiabilidade operacional da estrutura.
Objetivo da Obra
O principal objetivo da intervenção foi o reforço e a estabilização do canal de drenagem que margeia a barragem, destinado ao escoamento controlado de águas pluviais e de nascentes localizadas na mata adjacente. Como o canal já havia sido previamente construído, o escopo se concentrou na execução do revestimento em concreto projetado, garantindo integridade superficial, maior resistência ao desgaste hidráulico e aumento da durabilidade da estrutura.

Concreto Projetado e Robotização
Hills (1980) pesquisador inglês, define concreto projetado como sendo uma mistura de cimento, agregado e água projetados e alta velocidade a partir de um bico até um local onde produzirá uma massa densa e homogenia.
O concreto projetado apresenta vantagens relevantes quando aplicado em canais expostos ao fluxo de água, por ser lançado sob pressão, adere ao substrato de forma contínua e homogênea, formando uma superfície resistente à abrasão e aos ciclos sucessivos de umedecimento e secagem. Sua aplicação também permite contornar irregularidades da geometria existente, sem necessidade de formas complexas, conferindo excelente durabilidade superficial e reduzindo a ocorrência de degradações localizadas.
O emprego de projeção mecanizada por meio de robô controlado por joystick representou um avanço tecnológico significativo na execução. Essa solução possibilitou precisão no direcionamento do jato, estabilidade de aplicação e repetitividade de movimentos, reduzindo a variabilidade humana associada ao processo manual.
Do ponto de vista de segurança, a robotização afastou os profissionais da zona de impacto do rebote, diminuindo exposição a partículas projetadas, ruído e vibração, promovendo condições de trabalho mais seguras e maior controle operacional.

A mecanização também contribuiu para maior velocidade de execução, uma vez que permite longos períodos de operação contínua, mantendo a qualidade do acabamento e reduzindo interrupções típicas do processo manual.
Equipamentos Utilizados
Para a realização das atividades, foram utilizados os seguintes equipamentos:
- Bomba de projeção (Reed e Aliva 257);
- Compressor de Ar 900 PCM;
- Dosadora de aditivo (Aliva 403);
- Cabeçote de projeção (Aliva 101);
- Escavadeira hidráulica;
- Lavadora de alta pressão.

Controle Tecnológico
O controle tecnológico da execução foi conduzido com o objetivo de verificar o desempenho e a conformidade do concreto projetado aplicado no revestimento do canal. Para isso, foram extraídos corpos de prova, permitindo a realização de ensaios laboratoriais destinados à avaliação da resistência mecânica e da integridade do material projetado.
A adoção desse procedimento oferece vantagens significativas, uma vez que garante rastreabilidade da qualidade, valida o processo de projeção em campo e comprova a eficiência do traço empregado. Além disso, o controle tecnológico fortalece a segurança da estrutura ao confirmar o desempenho do revestimento, permitindo eventuais ajustes de parâmetros executivos e assegura a durabilidade do sistema aplicado.
Materiais Empregados
Para o revestimento, utilizou-se tela metálica soldada como armadura de distribuição, conferindo controle de fissuração e velocidade de execução, uma vez que elimina etapas de dobra, amarração e conferência de espaçamentos típicas de armaduras com barras CA-50. Essa solução é particularmente vantajosa em superfícies inclinadas, onde o controle geométrico é crítico.

O concreto empregado possuía temperatura e traço específico para projeção, garantindo comportamento tixotrópico durante o lançamento. A tixotropia favorece a coesão do material imediatamente após a aplicação, reduz escorrimentos e auxilia no ganho de espessura em camadas sucessivas.
Processo Executivo
O canal existente, com fundo de 1,60 m, taludes laterais de 1,60 m e aproximadamente 1.100 m de extensão, recebeu inicialmente limpeza com lavadora de alta pressão para remoção de finos e partículas soltas. Em seguida, procedeu-se à instalação da tela soldada, garantindo interface mecânica adequada entre substrato e concreto.

A aplicação foi realizada com projeção via úmida por meio de cabeçote acoplado a escavadeira hidráulica, permitindo que o operador mantivesse distância segura do plano de projeção. Durante o lançamento, controlaram-se vazão, pressão e dosagem de aditivos, assegurando acabamento uniforme e aderência satisfatória.

Após o lançamento, realizou-se o acabamento superficial do revestimento, garantindo a regularidade da camada aplicada e boa continuidade hidráulica ao longo do canal.

Em seguida, procedeu-se à cura inicial do concreto projetado, etapa essencial para reduzir retrações, evitar microfissuras e assegurar o desenvolvimento adequado de resistência.
Conclusão
A aplicação de concreto projetado mecanizado em canais de drenagem em barragens destaca-se como solução robusta frente aos desafios enfrentados relacionados ao escoamento superficial de águas pluviais. A técnica se provou ser eficiente, apresentando uma produtividade elevada comparada a métodos tradicionais.
A robotização da projeção elevou o padrão de qualidade executiva, promoveu avanço significativo em segurança ocupacional e ampliou a produtividade diária. Outro ponto positivo foi a redução do material perdido por rebote, proporcionada pela constância do ângulo de ataque, emissão do jato e estabilização dos parâmetros operacionais. Essa eficiência impacta diretamente na qualidade final da superfície do canal e otimiza o uso dos recursos. Além disso, o emprego de telas soldadas acelerou a fase de reforço, enquanto o traço tixotrópico permitiu ganhos de espessura sem escorrimentos.
Os resultados obtidos demonstram que a modernização de processos construtivos, quando aplicada a estruturas hidráulicas, contribui diretamente para a confiabilidade e longevidade das obras, reforçando a importância da integração entre engenharia, tecnologia e boas práticas.
REFERÊNCIAS
CRUZ, P. T. 100 Barragens Brasileiras: Casos Históricos Materiais de Construção Projeto. 2ª ed. Oficina de Textos. São Paulo, 2004. 680 p.
HILLS, D. L. A review of sprayed concrete – Part 1 Concrete. London. February 1980. Volume 14 Number 2.

